A sociedade atual e, talvez desde sempre, carrega como uma de suas características a tendência à mudança, ao avanço. Isto, em termos gerais significa dizer que o movimento é do simples ao mais complexo, mais elaborado, mais isto ou mais aquilo outro. As coisas simples cheiram a coisas ultrapassadas.
Num artigo da revista Ultimato, edição 327 - nov/dez 2010, o pastor Ricardo Barbosa de Souza propõe o que para muitos seria um chamado ao atraso, à caretice e por aí vai.
O autor convida exatamente aqueles que mais estão inclinados ao novo, ao diferente, ou seja, aos jovens, a pensarem sobre a importância da simplicidade e da permanência. Em termos bem práticos o autor convida à uma vida simples e a permanecer no mesmo. Careta? Conservador? Vamos ver. Eis alguns recortes do texto:
..."De vez em quando gosto de reler "Cartas de um Diabo a seu Aprendiz", de C. S. Lewis. Sua habilidade em perscrutar os labirintos da tentação me impressionam. Ele nos ajuda a reconhecer nossa enorme ingenuidade e a profunda sagacidade do inimigo.
Em uma dessas cartas, o Diabo reconhece que o verdadeiro problema dos cristãos é que eles são 'simplesmente' cristãos. O laço que os une é a vida comum que eles têm em Cristo. Ele então aconselha seu sobrinho: "O que nós desejamos, se não houver mesmo jeito e os homens tiverem de tornar-se cristãos, é mantê-los num estado de espírito que eu chamo de cristianismo e alguma outra coisa [...]. Substitua a fé em si por alguma moda com colorido cristão. Faça com que tenham horror da 'mesma coisa de sempre".
A 'mesma coisa de sempre' nos deixa entediados. Ser 'simplesmente' cristão, para muitos, não é suficiente. Precisamos de coisas novas. Sempre. Modelos novos de igreja, um jeito diferente de cantar, formas inovadoras de culto, estratégias sofisticadas de crescimento, e por aí vai. Somos movidos pelas novidades, não pela profundidade. Nosso interesse está na variedade, não na densidade.
O Diabo, na carta ao seu sobrinho aprendiz, diz: 'O horror pela mesma coisa de sempre é uma das mais preciosas paixões que incutimos no coração humano -- uma fonte infinita de conselhos estúpidos, de infidelidade conjugal e de inconstâncias na amizade'. A lista poderia se estender, mas o que se encontra por trás desse 'horror pela mesma coisa de sempre' é a grande atração pelo novo seguida de uma profunda distração pelo essencial. O que a novidade faz é direcionar nossa atenção para outras preocupações, dando mais valor aos meios e não aos fins.
Não importa o quanto nossas igrejas e ministérios sejam sofisticados. Não importa o volume de novidades e tecnologias que oferecemos. Se no final não encontrarmos as mesmas coisas de sempre, significa que nos perdemos com o meio e não alcançamos o fim.
Existem dois aspectos que considero fundamentais na experiência espiritual cristã: simplicidade e permanência. Quando perguntaram para Jesus como o reino de Deus viria, ele respondeu afirmando o seu caráter discreto. Não viria com grande estardalhaço. Se estabeleceria dentro daqueles que o confessam como Senhor e Rei. Jesus apresenta um evangelho que transforma de dentro para fora. O que o vaso contém é infinitamente maior e mais valioso que o vaso. Ele cresce como uma pequena semente de mostarda. A simplicidade está na natureza própria do evangelho.
Permanecer é mais do que conhecer. É manter-se em constante e dinâmico relacionamento. As novidades não transformam o caráter; a permanência, sim."...
Muito oportuna a reflexão em tempos de inovação constante e numa velocidade cada vez maior. O que hoje está atual, amanhã perdeu sua utilidade. Num mundo dos descartáveis e substituíveis, o recado é muito atual e mais ainda, é fundamental para a vida e os propósitos da igreja cristã.
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