Minha foto
Canguçu, Rio Grande do Sul, Brazil
Teólogo e jornalista. Casado com a Elisângela; pai do Filipe Daniel e do Victor Miguel. Gremista.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Pensando alto...


(texto escrito numa das disciplinas do curso de jornalismo, lá por volta de 2008.)
Dois desconhecidos e nada mais.
Ele quase não saía de casa nas poucas horas vagas que tinha. Do trabalho pra casa e vice-versa. Morando a pouco mais de um ano na pequena cidade de Itabaquera, no interior de Minas Gerais, Teodoro Afrânio não era o que podemos chamar de um cara enturmado. Seu serviço era na sede dos correios. Serviço burocrático, desses que a gente faz porque, bem, digamos que o salário é razoável e afinal de contas, pra que melhor. Não tenho grandes planos mesmo. Assim pensava Teobaldo Afrânio. Esperem. Eu disse Teobaldo! Não! Não é Teobaldo! É Teodoro. Teodoro Afrânio é o nome dele. Isso ele nunca mais esqueceu depois que, a muito custo, terem conseguido convencê-lo disso, e a mais custo ainda não ter rompido relações com seu pai e sua mãe por esse fato.
Teodoro Afrânio não simpatizava com seu nome. Teodoro Afrânio realmente não simpatizava nem um pouco com seu nome. Sua função exigia que tivesse contato com vários nomes em listas que lhe caíam nas mãos. Mas nenhum se aproximava ao absurdo de TEODORO AFRÂNIO. O negócio foi apelar para um recurso bastante usado. O apelido. Téo. Era assim que se chamava. Era assim que todos o conheciam e assim deveria continuar sendo. Assim precisava continuar sendo. Os colegas de trabalho, os poucos vizinhos com quem tinha algum contato, enfim, o círculo social, que era reduzido, era ainda muito superior ao número de pessoas que conheciam seu verdadeiro nome. E assim precisava continuar sendo.
A vida, às vezes, prega umas peças engraçadas. E o pior aconteceu. Ou diríamos o melhor aconteceu? Ainda não tirem suas conclusões. Mas o fato é que Téo, cujo nome era, bem, não interessa tanto, o fato é que ele conheceu uma moça. Aliás, uma bela moça, daquelas que aparecem sabe lá de onde e entram na nossa vida pela porta da frente. O nome dela? Mari. Ao menos foi o que ela disse ao se conhecerem no corredor do prédio dos correios naquela terça-feira a tarde. Mari parecia apelido, pensou Téo. O nome talvez fosse Mariana, Marina... Martina, como aquela colega do segundo grau que o fascinava pelo simples fato de existir.
Eles se conheceram melhor, conversaram, saíram juntos algumas vezes. Eram namorados, como se diz. Mas um assunto não entrava em pauta. O nome completo, o nome verdadeiro. Téo não tocava no assunto, com medo de ter que inventar algum nome que combinasse com seu apelido. Por outro lado Mari nunca tencionara saber seu nome todo. Melhor assim, porque no dia em que isso acontecesse seria o caos pensava, aos calafrios, o nem tão jovem Téo.
Muitas desgraças acontecem nessa vida, muita tristeza que poderia ser evitada se ao menos se tentasse algo nesse sentido. Mas o que aconteceu com esses dois já beira o ridículo se não fosse dramático. Com a vida a dois cada vez mais transformada numa só e se encaminhando para os rumos do altar, eis que se aproxima também o momento que Téo queria que não chegasse nunca. Revelar seu nome completo. O estranho é que algo parecia sufocar sua querida Mari, cada vez que o assunto beirava os detalhes do casamento, como dar entrada com os papéis para o registro civil.
Muitos detalhes da união dos dois já estavam alinhados. Lugar para morar, a festa e, pasmem, o vestido de noiva já estava comprado. Era um vestido bonito, manequim 46, daqueles que embelezam até noiva não tão provida de dotes físicos, o que não era o caso de Mari. Mas a vida prega cada peça na gente. Ou é a gente que prega peças na vida? Não importa. O fato é que uma semana antes do casamento, sem dar entrada nos papéis, no que estranhamente os dois haviam concordado, Téo e Mari se encontram na praça onde costumavam sentar aos finais de tarde. Num tom carregado de tristeza e com ares de que iriam sofrer por muito tempo, ambos chegam a uma conclusão:
- Vamos encerrar nossa história por aqui. Nada de casamento, foi o veredicto final.
Nas coisas que haviam comprado se poderia dar um jeito. Ambos levantaram e saíram tristes e ao mesmo tempo com um estranho alívio na consciência. Como se estivessem evitando uma tragédia maior do que aquela dor no coração.
Uma semana depois, um anúncio no pequeno jornal de Itabaquera rasga o que ainda havia sobrado inteiro no coração de Téo: “Vende-se um vestido de noiva, manequim 46, sem uso. Tratar com Marinildes, isso mesmo, MARINILDES, pelo fone XX XX68 4257.” Era o número da Mari.
Arnildo Münchow

sábado, 14 de janeiro de 2012

Seguidores

Total de visualizações de página