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Canguçu, Rio Grande do Sul, Brazil
Teólogo e jornalista. Casado com a Elisângela; pai do Filipe Daniel e do Victor Miguel. Gremista.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Gotas de realidade...

"Pegaram o cara em flagrante roubando galinhas de
 um galinheiro e o levaram para a delegacia.
 - Que vida mansa, heim, vagabundo ? Roubando
 galinha para ter o que comer sem precisar trabalhar.
 Vai para a cadeia!
 - Não era para mim não. Era para vender.
 - Pior. Venda de artigo roubado. Concorrência
 desleal com o comércio estabelecido. Sem-vergonha!
 - Mas eu vendia mais caro.
 - Mais caro?
 - Espalhei o boato que as galinhas do galinheiro
 eram bichadas e as minhas galinhas não. E que as do
 galinheiro botavam ovos brancos enquanto as minhas
 botavam ovos marrons.
 - Mas eram as mesmas galinhas, safado.
 - Os ovos das minhas eu pintava.
 - Que grande pilantra... (Mas já havia um certo
 respeito no tom do delegado)  Ainda bem que tu vai
 preso. Se o dono do galinheiro te pega...
 - Já me pegou. Fiz um acerto com ele. Me
 comprometi a não espalhar mais boato sobre as
 galinhas dele, e ele se comprometeu a aumentar os
 preços dos produtos dele para ficarem iguais aos meus.
 Convidamos outros donos de galinheiro a entrar no
 nosso esquema. Formamos um oligopólio. Ou, no caso,
 um ovigopólio.
 - E o que você faz com o lucro do seu negócio?
 - Especulo com dólar. Invisto alguma coisa no
 tráfico de drogas. Comprei alguns deputados. Dois ou
três ministros. Consegui exclusividade no
 suprimento de galinhas e ovos para programas de
 alimentação do governo e superfaturo os preços.
 O delegado mandou pedir um cafezinho para o preso
 e perguntou se a cadeira estava confortável, se ele não
 queria uma almofada. Depois perguntou:
 - Doutor, não me leve a mal, mas com tudo isso, o
senhor não está milionário?
 - Trilionário. Sem contar o que eu sonego de Imposto de
 Renda e o que tenho depositado ilegalmente no exterior.
 - E, com tudo isso, o senhor continua roubando galinhas?
 - Às vezes. Sabe como é...
 - Não sei não, excelência. Me explique.
 - É que, em todas essas minhas atividades, eu sinto falta
 de uma coisa. O risco, entende? Daquela sensação de
 perigo, de estar fazendo uma coisa proibida, da iminência
 do castigo. Só roubando galinhas eu me sinto realmente
 um ladrão, e isso é excitante. Como agora. Fui preso,
 finalmente. Vou para a cadeia. É uma experiência nova.
 - O que é isso, excelência? O senhor não vai ser preso não.
 - Mas fui pego em flagrante pulando a cerca do galinheiro!
 - Sim. Mas é primário, e com esses antecedentes..."
 
 Luis Fernando Veríssimo

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