E eis que diante do espelho está ele, com a missão diária de definir o penteado. – Dois para cada lado e um para frente. Está feito. É isso aí... perfeito! Não muitos dias depois a tarefa exige novas alternativas: - Um para cada lado e dois para frente. Ótimo! Semanas depois e: - Um para cada lado e um para frente. Mas como não poderia deixar de ser, o dia chegou. O dia da decisão talvez mais difícil dos últimos tempos. A hora e a escolha da qual não poderá se omitir. Diante do espelho está ele mais uma vez. Depois do banho, diante do seu cruel algoz, após testar um lado, o outro, quem sabe para frente, ele rompe o silêncio num desabafo de independência, indignação e valentia: - Hoje vou sair despenteado mesmo!
São os desafios ou des-fios do quase calvo, quase careca ou ainda, carecas teimosos, como querem os mais cruéis. A fase dos "quase" é feita de etapas que vão desde o pânico diante dos primeiros sinais, passando pela negação, pela luta contra a força da natureza, mais especificamente da gravidade, podendo incluir a revolta e finalmente a aceitação pacífica. Isso tudo não necessariamente nessa ordem, não necessariamente na mesma intensidade ou duração.
Geralmente a primeira tarefa de quem descobre que tem tendência para "aquilo" ou, não tendo sido avisado a tempo, já é um quase, é encontrar o penteado que mais se adapte ao momento. Quantos milhares já chegaram à triste constatação de que o penteado com o qual cresceram e marcaram época já não atende, ou melhor, já não cobre, as necessidades atuais. Então vêm aquelas franjas puxadas cada vez de mais longa distância, chegando aos ridículos topetes formados por fios provenientes da nuca. Também existem as técnicas elementares, indispensáveis, como usar um boné, ou tomar cuidados extras na hora de enfrentar o vento ou dar um mergulho. Ah, sem esquecer-se de evitar qualquer aparição antes dos primeiros cuidados matinais. Tudo vale para quem não se entrega assim de primeira.
Para alegria de uns e desconcerto de outros, no caso os quase, os valentes esforços, de ao menos prolongar os dias de quase, são adornados com aquelas lindas anedotas dos que desfrutam de sua bela cabeleira cobrindo a caixa craniana. Não existe misericórdia com os quase! Exceto a mãe ou a esposa exemplar, que ao menos se esforçam para não tocar no assunto, sempre haverá uma comparação perversa relacionada aos quase. Como aquela onde o quase é comparado aos admiradores mais apaixonados do rock nacional, pois tem na cabeça: "placa luminosa", "heróis da resistência" e, finalmente, a banda mais temida: "nenhum de nós".
No entanto a vida do quase também é feita de alegrias e gostosas expectativas. Ou posso dizer, quase alegrias e quase gostosas expectativas, porque de tempos em tempos é lançado um novo produto, que diz ser capaz de pôr um fim definitivo aos maiores temores do quase. E lá vai ele, numa entrega insana, numa atitude de auto-sugestão e negação das evidências, diante de mais um engodo do mercado de promessas. Mas é um enganar-se que faz bem para a vida do quase. Eu diria que é quase fundamental que tais existam.
Se o quase é filho de um ex-quase, que perdeu a batalha, existe um acréscimo de perspectivas ruins, pois a possibilidade de seguir os passos do progenitor é gigantesca. Mas, e se for o primeiro da sua linhagem? Se o pai, o avô e etc e tal forem todos muito bem providos de fios capilares? Então bate o calafrio na espinha: - serei o primeiro e ainda vou deixar essa herança para meus filhos! Ou, o que é mais provável, o quase recobra as forças na crença de que, se o problema não é genético, a solução tem de estar por aí e vale a pena tentar encontrá-la. Ou ainda: - na verdade nem sou um quase, isso é coisa da minha cabeça, nada que um bom penteado não resolva...
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